viernes, 1 de abril de 2011

A Vida- Cora Coralina

Há tantas definições na vida

Bonitas, tristes, expressivas, inexpressivas

A vida.
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Alguns já definiram a vida como um mar

Um mar revolto, encapelado

De ondas violentas

De naufrágios e tempestades

Um mar tempestuoso.

Outros definiram a vida um rio

O rio é a minha definição da vida

O rio imenso, farto,

Com as suas corredeiras e as suas margens.

A sua corredeira, sobretudo

E sobretudo os seus remansos.

Porque todo rio tem a sua veia corrente

O seu veio de corredeiras e tem seus remansos

E toda corredeira lança tudo para o remanso

O remanso aproxima-se da margem.

Da correnteza ao remanso, uma eternidade

Do remanso à margem, um pulo.

A ânsia dos moços que vão pela correnteza

A compreensão, a filosofia dos velhos lançados no remanso

E passados para as margens.

Eu fiz a travessia da minha vida

Do rio da minha vida

Na correnteza, como todos fazem

Passam os barcos, os grandes transatlânticos

Cantando, dançando

Mesa farta, música

Gente moça, gente despreocupada

Gente que acha o prato feito

E que tem apenas o trabalho de levar à boca aquilo que os outros fizeram

Que os outros acumularam

Que os outros prepararam.

São aqueles que recebem,

Por mercê de nascimento,

Todos os dons da vida.

Vão nos transatlânticos, despreocupados.

Depois seguem os barcos motorizados

Com um bom motorneiro na direção

A família amparada,

A família alegre, festiva

Mulher, crianças, noivos, sonhadores.

Sem pensar bem, vão acompanhando as classes

Um homem bem colocado na vida e que leva seu barco com segurança

Mulher, filhos à sua dependência

Vai guiando pelo espelho d'água pelo veio da correnteza

Com sua máquina, seu mundo

Aquelas paisagens todas, encantado com o panorama

Todos felizes, alegres, a família bem constituída

A família alheia às dificuldades do cotidiano

Vai esse barquinho.

Depois vem um barco menor,

Um barcozinho menor,

Com um motor de popa que já pertenceu a outros barcos que já foram desmontados

Vai fazendo a sua forcinha,

Vai fazendo a sua diligência

Passa também com seu esforço o grande rio da vida.

Depois um barco a remo, o remador.

Mulher, mãe pobre, pai, filhos, ilhos, ilhos.

Lá vai ele remando.

É um trabalhador, pai de família

Vai levando.

Depois descem os barquinhos fazendo água.

O homem no remo, a mulher com uma latinha para tirar a água.

Joga a água.

Vai fazendo água a ponto de afundar

Quem é o dono do barquinho?

É aquele pobrezinho

Mas ainda não é o último.

E ele vai levando o seu barquinho

Vai fazendo água, mas ele vai levando.

Aí passa eu, bracejando

Água pelo queixo, e eu bracejava, bracejava

Quatro crianças no meu dorso,

Agarradas nos meus cabelos, nas minhas orelhas

Nos meus ombros, nas minhas carnes

Quatro crianças que eu levava comigo e que devia levar até o porto

E eu bracejava, bracejava

Fui a última? Não

Não fui a última

Porque bracejando,

Com aquelas crianças no meu dorso

Eu vi passar náufragos, pedaços de barcos destroçados

Náufragos agarrados numa tábua

Corpos mortos de famílias desajustadas, destroçadas

E um dia,

Um dia a correnteza

Depois de muita luta, muito esforço

A correnteza me jogou no remanso

E o remanso me jogou para a margem

Senti uma solidez para os meus pés. Levantei

Saí da água escorrendo com a dor

Corridos, molhados, ainda sentindo no dorso aquelas quatro crianças

Depois pisei a terra firme da margem

As crianças saltaram do meu dorso

E o que eu vi nesta hora...

Esta hora foi a hora do deslumbramento

Eu havia carregado quatro crianças? Não

Quatro gigantes haviam me carregado.

Eu não carreguei meus filhos

Quatro gigantes me carregaram

Saltaram de meus ombros quatro gigantes

Eu vi

E compreendi que aquelas crianças que eu pensava que estava carregando

Agarradas aos meus cabelos, às minhas orelhas

Eram quatro gigantes que me carregavam.

Daí saiu de um canto um jovem e disse a uma das filhas:

Vamos fazer o nosso barco?"

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